Kardec e os EXILADOS

Curiosamente, Kardec publicou um artigo de Camille Flammarion, sobre um Espírito de Capela em 1867
Aceitamos a “provocação” do confrade Marcelo Henrique Pereira lançada em seu artigo “Capelinos de onde?”, neste mesmo “Jornal dos Espíritos”, sobre a origem dos exilados que no passado foram transferidos para a Terra, com a missão de reajustarem-se perante as leis divinas e, concomitantemente, fazerem progredir a humanidade terrestre ainda em estágio primitivo.
Embasado nos artigos de Oswaldo Iório, em “Espiritismo & Ciência”, número 43, e de Alexandre Cárdia Machado, no jornal “Abertura”(1), em síntese, Marcelo concluiu que Edgar Armond e Emmanuel “erraram” ao afirmar que os exilados provinham de Capela, que este mito deve ser desfeito e que não se sabe de onde vieram os exilados que nos fizeram progredir. Contudo, apesar do brilhante texto referente à Doutrina discordamos de suas conclusões quanto à origem dos exilados.
A obra que tomamos como base é “A Caminho da Luz”, do Espírito Emmanuel, psicografado por Francisco Cândido Xavier. Já que Edgar Armond tomou a mesma obra como referência para escrever “Os Exilados de Capela”, não nos ocuparemos desse texto e autor, pois como é sabido, Armond era também estudioso das Doutrinas Herméticas, e este seu trabalho reflete um pouco do seu conhecimento delas. Também não concordamos em atribuir a teoria dos capelinos a Armond uma vez que seu livro é de outubro de 1953 e o de Emmanuel data de agosto/setembro de 1938.
Iniciamos apresentando Capela, ou Capella, o mesmo que “Cabrita” no latim arcaico. Situa-se na Constelação do Cocheiro, ou Auriga, e dista 42 anos-luz da Terra(2). É um sistema binário composto, portanto, de duas estrelas. A estrela Aa é uma gigante amarela 80 vezes mais brilhante, 3 vezes mais massiva e diâmetro 11 vezes maior que nossa estrela, o Sol. Já a estrela Ab é 50 vezes mais brilhante e 2,5 vezes mais massiva que o Sol(3). A distância entre as estrelas Capela (Aa e Ab) é de apenas 113 milhões de quilômetros(4). Elas giram em torno do baricentro do sistema, isto é, em torno do centro de gravidade do sistema Aa e Ab e, não, uma em torno da outra. Sendo da mesma classe que o Sol (amarelas), elas evoluirão para anãs-brancas e, finalmente, para anãs-negras.
A afirmativa de Alexandre Cárdia Machado, de que por ser um sistema binário e possuir uma nebulosa solar Capela não poderia ter planetas ou desenvolver vida carece de qualquer fundamento científico. Não encontramos na literatura nenhuma menção quanto a uma nebulosa em Capela nem de um disco de poeira (ou protoplanetário) que as envolvesse. Como Emmanuel relata uma família de planetas nesse sistema, a nebulosa solar ou o disco protoplanetário já teria se transformado em planetas.
Mesmo que Capela (Aa e Ab) fosse envolvida por uma nebulosa solar, como afirma Alexandre, a NASA, agência espacial americana, no Documento Nº 03-084, liberado ao público em maio de 2003, sugere que o sistema binário estudado, cujo nome é HD 98800A, que fica na Constelação TW Hydrae, semelhante ao nosso primitivo Sol, apresenta dois discos de poeira, chamado, em inglês, de “planet-forming ou protoplanet”, que poderá evoluir, para a formação de planetas(5). Recentemente(6), entretanto, em março de 2007, a mesma agência liberou material indicando que esse sistema é mais complexo do que se pensava, pois é constituído por quatro estrelas e que o “gap” no disco de poeira pode indicar que a formação de planetas já teve início, embora possa ser, também, o resultado da inteiração gravitacional entre as quatro estrelas. A certeza virá com o avanço da tecnologia. Porém, é importante ressaltar, admite-se – com grande índice de certeza – a possibilidade de planetas em sistemas binários, em sistemas com três estrelas (ver a descoberta do planeta HD 188753 Ab)(7) e em sistemas mais complexos com quatro estrelas.
Repetimos que não lemos o trabalho de Alexandre Machado e que não sabemos qual literatura consultou, no entanto, os resultados divulgados pela NASA falam por si e cai por terra, definitivamente, o argumento sobre a impossibilidade de planetas em sistemas binários com e sem disco de poeira. Aliás, o nosso sistema solar, pensam alguns astrônomos, seria parte de um sistema binário, pois que o Sol possuiria uma estrela-companheira, Nêmesis, uma anã-vermelha ainda não localizada e que estaria entre 1 e 3 anos-luz de distância(8).
Emmanuel, na obra já citada diz que a Terra desprendeu-se da nebulosa solar (pág. 18), e que foi destacada do núcleo central do sistema (pág. 19), o que está de acordo com a teoria clássica da formação dos planetas(9). Porém, revela que o nosso sistema solar foi planejado por Jesus e pelos espíritos superiores e que tudo fora previsto para o desenvolvimento da vida na Terra sendo, a beleza, uma de suas preocupações principais.
Com referência aos capelinos e Capela, Emmanuel afirma:
PRIMEIRO – Capela é um sistema binário que se faz acompanhar de uma família de mundos (página 31);
SEGUNDO – Entre aqueles mundos, um guarda muitas semelhanças com a Terra (página 32);
TERCEIRO – Dali saíram alguns milhões de espíritos rebeldes que vieram para a Terra (página 35);
QUARTO – Grande parte daqueles espíritos voltou a Capela após séculos de sofrimentos expiatórios e muitos ainda se encontram na Terra (página 37);
QUINTO – “…as quatro grandes massas de degredados formaram os pródromos de toda a organização… introduzindo os mais largos benefícios no seio da raça amarela e da raça negra, que já existiam” (página 38 – somente agora foi confirmado o fato de que elas existiam separadamente pois os paleontólogos  pensavam que todas as raças teriam derivado da raça negra(10).
Para não cansarmos o leitor,    vamos comentar brevemente os itens acima:
PRIMEIRO – A tecnologia atual não permite ver diretamente exo-planetas orbitando estrelas; eles são     descobertos quando “transitam” pelo disco solar de seus sistemas. É por isso que os observatórios  espaciais e terrestres ainda não descobriram nenhum planeta em Capela embora esse sistema tenha sido alvo de várias pesquisas e calibração de instrumentos;
SEGUNDO – Emmanuel fala de um planeta, do sistema de Capela, semelhante à Terra, o que responde à dúvida de Marcelo Henrique em seu artigo;
TERCEIRO – Há, já, livros espíritas e não espíritas tratando dos capelinos na Terra. Exemplo: “Os Filhos das Estrelas” e “Tempo de Amar” (Lúmen Editorial), ambos da doutora Maria Teodora Ribeiro Guimarães, fundadora e conselheira da Sociedade Brasileira de Terapias de Vidas Passadas – SBTVP(11) – relata o caso de um jovem desajustado, Leo, que, através da Terapia de Vidas Passadas, regride até suas encarnações no sistema solar de Capela, onde fornece alguns dados sobre o seu planeta de origem. Um dado importante, é o relato de que seu planeta tem um período de translação de cerca de 12.600 anos terrestres – se bem lembramos já que não temos o livro para consulta no momento – o que implica numa grande distância das estrelas centrais e um impacto menor frente à potência luminosa/calorífica irradiada pela dupla de estrelas, isto é, recebe menos calor e, portanto, possibilidade maior de desenvolver-se vida material como a conhecemos;
“Colônia Capela – A Outra Face de Adão”, de Pedro de Campos, por instruções do Espírito Yehoshua bem Nun (Lúmen Editorial). Obra muito interessante. Somente para estudiosos;
“Exilados por Amor”, de Lucius, psicografia de Sandra Carneiro (Vivaluz), recentemente  lançado, o livro relata a trajetória de um espírito capelino em seu exílio terrestre e que conhece Jesus na Palestina. É uma agradável e envolvente leitura;
Curiosamente, Kardec publicou um artigo de Camille Flammarion, uma ficção diríamos nos dias atuais, sobre um Espírito de Capela, na Revista Espírita de março e maio de 1867;
“Crepúsculo dos Deuses” (Editora Casa dos Espíritos), de Ângelo Inácio, psicografia de Robson Pinheiro, que, por respeito e caridade à Doutrina, deveria ser retirado das livrarias tal é a confusão, a quantidade de erros conceituais e a falta de bom senso nos argumentos apresentados. O médium, que tem obras importantes, se esqueceu completamente das recomendações de Kardec, e os cuidados de Chico Xavier, ao se editar um livro espírita. Em breve faremos um artigo sobre o livro.
Em resumo, pelo mostrado acima, não se sustentam as teses de Alexandre Cárdia Machado enquanto que as de Emmanuel revelam-se precisas, atuais.
Nos fins dos anos 1930, na mesma obra, Emmanuel já dizia que Deus não fez o homem para viver só no Universo e que nos faz bem esse “isolamento” momentâneo por ainda sermos espíritos de evolução insipiente, egoístas e belicosos, de onde depreendemos que ao progredirmos moralmente poderemos vir a nos relacionar com irmãos encarnados de outros sistemas solares.
Não teceremos maiores comentários sobre o artigo de Richard Simonetti indicado por Marcelo em Notas do Autor, nº 5. Diremos apenas que Simonetti, por quem temos especial respeito por nos introduzir no Espiritismo no longínquo ano de 1971, em Bauru, SP, cai perigosamente na mesma tentação – e erro – dos que diziam que a antimatéria é a matéria do mundo espiritual e do perispírito (não é!), ao aventar a possibilidade de que a “matéria escura” que os astrofísicos não enxergam seja a matéria do mundo espiritual. Pode até ser, mas é demasiado prematuro sugerir tal hipótese quando não se sabe quase nada a respeito dela. Einstein previra a “energia escura” em suas equações. Depois, retirou esse termo delas, pois os instrumentos da época não corroboravam sua previsão. Disse que foi uma estupidez ter pensado naquilo. Hoje, sabemos que estava certo.
Em Espiritismo, valem sempre as recomendações de Kardec sobre a “aplicação do bom senso e o controle universal dos espíritos”, bem lembradas por Marcelo, aliás. Concordamos com ele quando afirma que não devemos “endeusar espíritos ou personalidades encarnadas” e que devemos submetê-los sempre ao crivo da razão, do bom senso e ao controle universal dos espíritos. Contudo, o respeito e a fraternidade devem sempre ser um imperativo na discordância, como ele bem lembrou.
Concluindo, então, se pensarmos em Emmanuel como aquele espírito que ajudou a forjar a personalidade de Chico Xavier, aquele que orientou toda a obra de André Luiz e outros Espíritos permitindo que se dilatasse o entendimento e a compreensão da Doutrina Espírita, aquele que não hesita em dizer que “aos espíritos de minha esfera não é dado conhecer isso” ou que “vocês não têm palavras, conhecimento ou não estão preparados para saber daquilo”, podemos confiar nas suas afirmações não por endeusamento, tradição, consenso ou pureza doutrinária, mas por suas atitudes e obras.
Mesmo que no futuro se descubram planetas em Capela, o que aguardamos com certa ansiedade, não se pode afirmar absolutamente que há vida ou civilização avançada neles. A rigor, certeza absoluta, teremos se alguma nave interplanetária pairar nos céus das principais capitais da Terra e seus tripulantes confirmarem vir do sistema de Capela. Ou, então, quando de volta ao plano espiritual, tivermos permissão para estudar a fundo essa matéria.

 

Por último, já que o assunto é transmigração de espíritos, discordamos da afirmativa do querido Divaldo Franco, em seu livro(12) “A Nova Geração: A Visão Espírita sobre Crianças Índigo e Cristal”, de que espíritos mais evoluídos estão vindo para a Terra a partir de Alcione, uma entre as mais de 300 jovens estrelas que compõem as Plêiades, também conhecidas como as Sete Irmãs.
Sabe-se que as Plêiades são estrelas novas, com idade de 100 milhões de anos, distando cerca de 400 anos-luz do nosso sistema solar(13). Assim sendo, parece muito difícil ter se desenvolvido um planeta e uma civilização avançada em tão reduzido tempo se pensarmos que a Terra levou quase 1 bilhão de anos para esfriar e aparecerem os primeiros organismos unicelulares e que o “Homo sapiens” apareceu quase 4 bilhões de anos depois do surgimento da vida.
Divaldo diz que há um estudo mostrando que o Sol é “escravo” da atração gravitacional de Alcione e que gira em torno dela a cada 26 mil anos (página 23). Na verdade, conforme relata a astrônoma e pesquisadora do Goddard Space Flight Center, da NASA, Duília de Mello, o Sol e as Plêiades estão se afastando. Para que fôssemos atraídos por Alcione, esta deveria ter a massa igual a de 200 bilhões do nosso Sol. Para comparação, o núcleo da nossa galáxia é estimado em 10 bilhões de nossa estrela(14). Seria muito mais razoável supor, portanto, que o Sol fosse atraído por Capela distante 42 anos-luz ou pelas estrelas do Centauro (Alfa, Beta e Próxima) a 4,6 anos-luz, distância insignificante em termos astronômicos.

 

Na realidade, o Sol gira em torno do núcleo da Via Láctea a uma velocidade de 828 mil quilômetros por hora, demorando cada revolução completa, 230 milhões de anos(15). Em estudo atualíssimo(16) mostra-se que em 4 bilhões de anos nosso sistema solar será arrancado da atual galáxia e passará a integrar a galáxia de Andrômeda (um tempo depois, Andrômeda e a Via Láctea irão se chocar e formar uma galáxia ainda maior. Há quem afirme que esse choque se dará antes, em 3 bilhões de anos. O mesmo período em que o Sol começará seu declínio como estrela – ele inflará até a órbita da Terra e depois “murchará” tornando-se uma anã-branca e, finalmente, ao esgotar seu combustível nuclear, uma anã-negra).
Acreditamos que Divaldo deixou-se levar por “esotéricos” e que deveria antes de proferir palestra em Oswego, Illinois, EUA, e lançar o DVD e o livro sobre este assunto, informar-se melhor. Poderia, inclusive, consultar Raul Teixeira, que é Físico, em assuntos dessa natureza.
A realidade, é que há muito tempo o Sol envia abençoados fótons à sua família de planetas, em forma de luz que ilumina e aquece permitindo que a Vida se manifeste em múltiplas formas neste maravilhoso planeta azul chamado Terra.
Uma última provocação: como vieram os exilados capelinos para a Terra ou os novíssimos cristal/ índigo? Não, não vieram à moda de Ângelo Inácio/ Robson Pinheiro, isto é, a bordo de um cometa gigante, pois, além de improvável, é absurdo.

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